segunda-feira, 11 de junho de 2007

A história da foto de Campanella Neto >

A foto de Campanella Neto (na verdade, um conjunto de fotos) não chegou a ser tão profundamente significativa como imagem em si, porque a simples informação de que teria sido realizada, curiosamente, já teve, antes mesmo de sua publicação, forte influência política... São fotos da Revolta de Aragarças, movimento sedicioso comandados, em 1959, meados do governo Juscelino Kubitschek, por oficiais da Aeronáutica. A característica fundamental é a forma como foi obtida. Resultou de um esforço para superar impedimentos e perigos, que denota alto senso de dever jornalístico, que pode ser traduzido por senso de valor histórico na medida em que se relaciona à evolução das relações entre Forças Armadas e instituições democráticas no Brasil.
Diz o Paparazzi que foi Campanella Neto “quem abortou, em 1959, a rebelião militar de Aragarças, que pretendia depor Juscelino Kubitschek, tendo o então coronel Burnier como um dos cabeças, [o mesmo] que, mais tarde, já como brigadeiro, foi um dos integrantes da linha-dura dos militares golpistas de 1964 e, depois, comandante do temido Parasar”.


“Seqüestrado com outros passageiros e a tripulação de um Constellation da Panair pelo major revoltoso Eber Teixeira Pinto, Campanella desceu em um campo de pouso da FAB em Aragarças, no interior de Goiás, QG dos revoltosos. O grupo, entre ele o senador Remi Archer, foi confinado em um hotel fazenda perto do campo, sempre vigiado por sentinelas.”
“Campanella conseguiu driblar a vigilância dos soldados e enviar três telegramas de uma cidade vizinha, para seu editor-chefe, Joel Silveira, para o presidente do Senado e para o marechal Lott, então ministro da Guerra – no avião também viajava o corpo embalsamado de um tenente da Aeronáutica, sobrinho de Lott, acompanhado da viúva.”
A notícia chegou aos revoltosos pelo Repórter Esso: “Heron Domingues entra com seu vozeirão para anunciar a primeira notícia do dia: ‘Telegramas enviados pelo jornalista Campanella Neto denunciaram que Aragarças é o esconderijo dos revoltosos...’”. Campanella “não conversou... olhou pro lado e saiu de fininho, e, depois, correu para o mato para se esconder. De lá, foi vendo um a um dos aviões decolando rumo ao exílio, um deles levando como reféns os políticos”.
Segundo o Paparazzi, para Campanella, “a importância da leitura diária dos jornais foi a ferramenta do furo jornalístico”. Em reconhecimento, ganhou, pelo conjunto de sua obra sobre Aragarças, o Prêmio Esso de Fotografia hors concours de 1959.
Fica evidente a intenção do jornalista de interferir nos acontecimentos (enquanto registrava), evidenciando o valor histórico dessa intermediação: “Depois da fuga dos revoltosos, após a notícia no Repórter Esso, o céu amanheceu coalhado de aviões e pára-quedistas das tropas do governo. Campanella começou a fotografar rápido e quase ficou sem o filme de novo, mas, quando disse quem era, foi tratado como herói nacional. Em uma operação de guerra, camuflaram galões ao longo da pista de pouso esperando algum desavisado. E ele apareceu. Era o C-47 que tinha levado o corpo do oficial e voltava carregado de armamento.”
É o ápice da história, um final digno de filme de aventuras: “Campanella estava ao lado do comandante na pista quando o piloto recebeu voz de prisão. ‘Ele começou a atirar, deu um cavalo-de-pau, tentou arremeter de novo, bateu nos galões atirados para impedir a fuga e o avião começou a pegar fogo e a explodir munição. Era o Vietnã!’, conta ainda com os olhos brilhando Campanella.”
Finalmente, “fez a reportagem exclusiva da prisão dos revoltosos e pousou em Brasília para entrevistas. Desta vez do outro lado: ele era o personagem principal da história.”

Campanella Neto, mineiro de Pouso Alegre, começou a fotografar aos 14 anos, fascinado pelo trabalho do fotógrafo, que lhe ensinou a técnica, do casamento de uma irmã. Em São Paulo, trabalhou como revelador no laboratório da Fotoptica. Iniciou a carreira no jornal A Noite, no Rio. Cobriu o exílio de Adhemar de Barros no Paraguai e o translado do corpo de Carmen Miranda de Miami para o Brasil. Passou para o JB em 1956 e logo para a Revista Mundo Ilustrado, do Jornal Diário de Notícias. Além de Aragarças, suas principais reportagens foram o concurso Miss Universo (de 1957 a 1967), a fuga em massa de cubanos para Miami e a posse do Papa João XXIII, em 1963. Outros trabalhos destacados foram a cobertura da morte de Getúlio Vargas e a construção do Muro de Berlim. Montou a Staff Press, a segunda agência de fotografia do Brasil. Após o golpe de 64, associaram-se ao Jornal do Brasil, como Studio JB. A partir de 1967 (por mais 20 anos) assumiu o sub-editoria do JB. Aposentado aos 55 anos, continuou como free-lancer para diversas instituições até parar. Faleceu em 2004.

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