Sobre fotos históricas
Trabalhei como repórter-fotográfico de 1977 a 1980 na Editora Bloch, daí a 1986 no Jornal do Brasil, depois como free-lancer as sucursais de jornais e revistas paulistas. A partir de 1990, passei a ser free-lancer para empresas, com raras tarefas jornalísticas.
Quando comecei na profissão já tinha a pretensão (como, creio, todos os fotojornalistas têm) de fazer fotos marcantes, especiais, históricas... Na primeira fase, nas várias revistas do grupo Bloch (mesmo na Manchete ou na Fatos & Fotos), as chances eram pequenas porque as matérias eram, em geral, genéricas ou defasadas em relação aos jornais.
No JB, me senti em condições ideais, apesar de, por ser um dos menos experientes, costumar ser preterido na escalação para grandes eventos. Ah, mas mesmo uma “saída” de pouca importância podia possibilitar uma grande foto, que, aliás, teria valor especial justamente por isso...
Alguns colegas conseguiram, mas eu nem tanto... Ao menos para o meu nível de exigência, poucas das fotos que fiz posso chamar de “histórica”, por qualquer critério que seja, apesar de saber o quanto há de subjetividade nisso... Em suma, ou os eventos eram desinteressantes demais ou não soube registrar de forma tão especial assim os mais importantes que tive chance de fotografar. Ou ainda (e este parece ser um fator de muito peso...), simplesmente não tive sorte.
Brizola pula a fogueira
Uma das fotos que eu poderia chegar a chamar de histórica é a de Leonel Brizola pulando uma fogueira. Um dia, saí da redação do JB com o repórter J. Paulo, para acompanhar o então candidato a governador num roteiro pela Zona Norte da cidade. No começo da tarde estávamos no Conjunto Amarelinho, em Irajá, junto à Av. Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer, além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças.
Brizola ganhou a honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente, vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta:
- Tens coragem de pular a fogueira, tchê?!... Então, vai na frente, que eu vou atrás!...
Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também em campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranqüilo e ia pular.
Eu me preparei como pude... Busquei uma posição lateral, pus a 24mm (a maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo-de-olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro. Ou, refugar...
Brizola tinha olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul claro de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem outras considerações, partiu!...

No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num vôo acima de tudo. Aterrisou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem. Sem dúvida, era muito mais fácil pular uma fogueira de subúrbio sem se queimar do que evitar se queimar no caminho para a presidência...
A foto saiu na primeira página, mas na parte de baixo, superada por algum assunto mais emergencial e também pela orientação do jornal, que decididamente não o apoiava. Ainda assim, foi reproduzida algumas outras vezes por outros veículos. Depois, só foi lembrada (e publicada), pela Istoé, quando de sua morte.
Se Brizola tivesse conseguido evitar seus erros políticos e administrativos e superado as muitas barreiras que os adversários colocaram em seu caminho, chegando à Presidência, quem sabe esta foto não poderia ser um espécie de síntese de sua carreira, simbolizar sua trajetória na política brasileira?